Genocídio

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Tem pão velho?

Não, criança
Tem o pão que o diabo amassou
Tem sangue de índios nas ruas
E quando é noite
A lua geme aflita
Por seus filhos mortos.

Tem pão velho?

Não, criança
Temos comida farta em nossas mesas
Abençoada de toalhas de linho, talheres
Temos mulheres servis, geladeiras
Automóveis, fogão
Mas não temos pão.

Tem pão?
Pão não!

Tem pão velho?

Não, criança
Temos asfalto, água encanada
Supermercados, edifícios
Temos pátria, pinga, prisões
Armas e ofícios
Mas não temos pão.

Tem pão velho?

Não, criança
Temos tudo mas não temos nada
que se pareça com pão

Tem pão velho?

Não, criança
Temos mísseis, satélites
Computadores, radares
Temos canhões, navios e usinas nucleares
Mas não temos pão.

Tem pão velho?

Não, criança
Tem o pão que o diabo amassou
Tem sangue de índio nas ruas
E quando é noite
A lua geme aflita
Por seus filhos mortos.

Tem pão?
Pão não!

Tem pão velho?

Tem sua fome travestida de trapos
Nas calçadas
Que tragam seus pezinhos
De anjo faminto e frágil
Pedindo pão velho pela vida
Temos luzes em óperas avenidas
Temos índias suicidas
Mas não temos pão.

Emmanuel Marinho, em “Cantos da Terra“.